dom, 5 abril 2026

Crítica | Marty Supreme

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É impossível sair de Marty Supreme sem uma sensação estranha de vazio cheio. O filme grita, corre, empilha cenas, ideias, humilhações, vitórias, colapsos — e, ainda assim, deixa a impressão de que falou muito mais alto do que fundo. Tudo parece urgente. Tudo parece intenso. Mas quase nada, de fato, atravessa.

O ponto de partida é sedutor. Inspirado livremente na figura real de Marty Reisman, um jogador de tênis de mesa norte-americano, o filme constrói seu protagonista como um mito torto: um gênio obsessivo, teatral, cruel, carismático, disposto a atropelar qualquer pessoa no caminho em nome de uma revanche pessoal e de um reconhecimento que nunca sacia. Existe aí uma liberdade poética assumida, e isso não é um problema em si. O filme não quer ser biografia. Quer ser fábula. Quer ser alegoria.

O problema é o tipo de fábula que ele escolhe contar.

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Tudo gira em torno de Marty (Timothée Chalamet). Desde o título. Desde o enquadramento. Desde a maneira como o roteiro estrutura cada conflito como se o mundo existisse apenas para tensionar, frustrar ou alimentar a jornada emocional desse homem. As mulheres entram como danos colaterais. Os amigos entram como degraus. Os afetos existem como encenação: confiança, crueldade, desespero. Tudo performado, nada realmente enfrentado.

O filme até flerta com a ideia de que a obsessão destrói. Constrói uma narrativa que parece caminhar para a punição moral desse sujeito asqueroso. Mas, quando chega a hora de fechar essa conta, ele recua. Não há consequência real. Há fetiche. Fetiche pela autodestruição masculina travestida de genialidade. Fetiche por esse arquétipo do homem branco que pode tudo, passa como um tufão pela vida alheia, instrumentaliza pessoas, humilha mulheres e, ainda assim, sai recompensado.

E aqui Marty Supreme começa a crescer, não porque resolve isso, mas porque revela, talvez sem querer, o que ele realmente é.

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O incômodo não vem só do personagem. Vem da estrutura moral do próprio filme. Porque o roteiro não está interessado em olhar para o impacto que Marty causa nos outros. Ele está interessado apenas na frustração dele. O mundo gira ao redor do ego ferido do protagonista, nunca das vidas que ele atropela. Quando surge a chance de discutir crueldade de verdade, não como estilo, mas como dano, a narrativa suaviza, apaga, desvia.

Isso se repete nos detalhes. As mulheres da sua vida, como Rachel Mizler (Odessa A’zion), e o amigo de Marty, Wally (Tyler Okonma), entram com peso dramático, mas são progressivamente escanteados. Eles não são sujeitos. São pontes. E, como toda ponte, só importam enquanto levam o protagonista para algum lugar. Depois, viram paisagem. Não por acaso, isso ecoa uma leitura maior: cabeças a serem pisadas e depois esquecidas.

Visualmente, tudo é bem embalado. A câmera imperativa, que perde o foco o tempo todo buscando os atores como quem tenta acompanhar a bolinha no tênis de mesa, é uma ideia interessante. A repetição, a prolixidade, a montagem frenética parecem dialogar com a estética do esporte e com a personalidade do protagonista. Mas o filme confunde insistência com profundidade. Ele repete, repete, repete e chama isso de intensidade.

“Marty Surpreme” (2025) • Youtube/Reprodução

Ainda assim, existe ouro aqui.

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Chalamet entrega um personagem que permite deslumbre e ódio na mesma medida. Ele é sagaz, imundo, carismático, destrutivo e isso funciona. Funciona tanto que explica por que o ator está usando esse filme como marco de maturidade. Marty é desprezível, mas magnetizante. E essa ambiguidade é, de longe, a parte mais honesta do filme.

Também há momentos raros em que o desespero humano de verdade aparece. Quando isso acontece, Marty Supreme parece capaz de algo muito maior. Parece um filme que poderia atravessar. Mas ele sempre recua para a mesma fantasia velha com roupa nova.

No fundo, a maior ilusão aqui é a de profundidade. O filme encena afetos, mas não lida com efeitos. Parece importante, mas diz pouco. Parece provocador, mas em 2026 isso já soa cansado. É uma carta de amor a homens que amam demais o som da própria voz. Uma ode à supremacia do protagonista travestida de drama esportivo.

Talvez o mais irônico seja que, ao tentar falar sobre obsessão, injustiça e reconhecimento, o filme acaba exemplificando exatamente o sistema que diz criticar. O sujeito destrói tudo ao redor, não paga a conta e ainda é tratado como figura trágica digna de aplauso.

No fim, Marty Supreme não é sobre pingue-pongue. Nem sobre ambição. Nem sobre genialidade.

É sobre um cinema que ainda confunde intensidade com relevância. E que ainda acha que esse tipo de homem merece admiração, não questionamento. E isso, honestamente, é o que mais incomoda.

Marty Supreme lança nos cinemas nesta quinta-feira (22).

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