Corin Hardy acabou fazendo muito sucesso com ‘A Freira’ (2019), sendo aquele apenas o seu segundo longa-metragem profissional. Quase oito anos depois, ele retorna como diretor para ‘O Som da Morte’, filme estrelado por Dafne Keen, conhecida por seu papel recente como Laura em ‘Logan’ (2017) e agora mais protagonismo em outros projetos no cinema.
Um grupo de estudantes de ensino médio marginalizados encontra por acaso um objeto amaldiçoado que convoca suas mortes futuras. Agora, eles estão em uma luta para se manterem vivos.
Recentemente repercutiu uma discussão nas redes sociais a partir de declarações de pessoas importantes da indústria cinematográfica como Matt Damon sobre como a Netflix prefere “fazer roteiros mais burros” para que as pessoas possam entender a história enquanto fazem outra coisa, como mexer no celular, cozinhar, conversar, etc. A partir dessa perspectiva, avaliando o que o cinema contemporâneo criou, o maior sintoma disso é o cinema de terror. A experiência de um filme de terror atual, especialmente do mercado estadunidense, se passa pelo impacto do jumpscare, dos sustos. Como se começássemos o filme com um contador na tela de jumpscares e quanto mais, melhor.
O trunfo do terror do cinema sempre foi, justamente, a “ocultação” máxima sobre os reais motivos de medo daquela história de forma literal, mas sim passados, através da linguagem cinematográfica, de forma sentimental, atmosférica. Quando penso em grandes diretores do cinema de terror como John Carpenter e Dario Argento, quando assisto filmes como ‘O Exorcista’ (1971), dirigido por William Friedkin, ‘Pulse’ (2001), dirigido por Kiyoshi Kurosawa ou como ‘A Carruagem Fantasma’ (1921), dirigido por Victor Sjöström, não penso em um “cinema de jumpscares”, mas sim na sensação necessária de medo e aflição que aqueles ambientes me despertaram.

Observe que, inevitavelmente, quando assistimos a um filme somos inseridos naquele universo, dentro daquela sala escura, e essa nossa “invasão” a aquele mundo não vai se resumir sobre sustos estereotipados, mas sim em como nós vamos nos conectar com o restante daquela diegese. Eu acho que filmes como ‘O Som da Morte’ acabam significando exatamente em que ponto estamos nesse desenvolvimento do gênero na sétima arte. Jumpscares, a mera citação de uma história mística e personagens que apenas rastejam pelo enredo, é um combo confortável que os filmes de terror tem preferido recentemente. No caso do filme de Corin Hardy, essa força maior acaba se resumindo a um discurso vazio sobre morte e vida, enquanto o roteiro faz citações e até conta com personagens incluídos no enredo apenas para explicar do que se trata o artefato especial que amaldiçoa aquelas vidas.
Existe um esforço em elementos isolados, como a fotografia de Bjorn Charpentier que ainda transmite bem uma sensibilidade sobre o drama daquela situação, com um uso das cores fortes, usos de planos pelas costas e planos mais abertos em determinadas circunstâncias de cenas com maior tensão, mas muitos desses planos acabam sendo esgotados ou não valorizados em uma decupagem que prefere brincar de fazer metáforas, com cortes rápidos e câmeras lentas para tentar ressignificar certos momentos da narrativa. O principal ponto do filme, por pura ironia, acaba sendo o romance entre Ellie e Chrys, com diálogos e uma interação que genuinamente repercutem uma força em tela, assim como as atuações de Sophie Nélisse e Dafne Keen, respectivamente. Não coincidentemente, o próprio diretor tem escolhido a relação das duas no filme como destaque da obra em suas entrevistas também.
‘O Som da Morte’ produz aquilo que o gênero de terror está acostumado nos últimos anos, uma tentativa de criar uma história com alguma metáfora mas que esbarra em um conglomerado de jumpscares, frases filosóficas soltas e uma unidade que está preocupada apenas em chocar o espectador a todo custo, mesmo sem nenhuma construção que viabilize isso.


