dom, 5 abril 2026

Crítica | O Primata

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Histórias sobre animais assassinos não são propriamente uma novidade no cinema de terror estadunidense, esses filmes existem desde muito antes de Steven Spielberg arrebentar quarteirões com seu icônico tubarão e já renderam obras com as mais variadas abordagens. Engana-se, porém, quem acredita que isso, por si só, significaria um esgotamento do subgênero. Pelo contrário, Primata é a prova de que em 2026 ainda podemos ter bons filmes que abordam de forma ficcionalizada a sanguinolência animal, sem que, para isso, seja necessário reinventar a roda cinematográfica.

A narrativa parte de uma premissa bastante tradicional, uma garota retorna para casa de sua família ao lado de duas amigas para passar um final de semana. Lá ela se reencontra com sua irmã e um amigo de infância e o grupo decide dar uma festa, enquanto o pai se ausenta para trabalhar. Além dos jovens, a casa também abriga Ben, um chimpanzé domesticado, criado como um bichinho de estimação, em razão de estudos conduzidos pela mãe das meninas, antes dela falecer. Quando o animal contrai hidrofobia, popularmente conhecido como raiva, a festa ganha contornos violentos, culminando em mortes sanguinolentas.

O primeiro grande acerto do diretor, Johannes Roberts, é não se demorar na introdução de seus descartáveis personagens, que só estão em tela para servirem de vítima do animal. Sabemos apenas o suficiente sobre aquelas quase-pessoas que se comportam como perfeitos estereótipos e, assim, conseguimos nos empolgar com a ideia de vê-las sendo brutalmente desmembradas, sem peso na consciência – algo que só funciona dentro da lógica fantasiosa do cinema.  

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Outra ideia bem aproveitada – que poderia ter dado catastroficamente errada – é a escalação do ator Troy Kotsur no papel de pai das garotas. A surdez do personagem é usada pontualmente, não como uma fraqueza a ser superada, nem como um trunfo que lhe garanta superpoderes ocultos – como algumas vezes ocorre em abordagens com menos tato. Seu traço definidor é ser um pai ausente, ser surdo é apenas uma característica. O diretor usa disso para brincar com a retirada do som de cenas acompanhadas pelo seu ponto de vista, aumentando o clima de tensão.

No mais, as situações perigosas e as soluções encontradas pelas protagonistas seguem uma estrutura bastante esquemática e típica de filmes como esse. O roteiro caricatamente simplório faz com que o macaco seja uma ameaça indestrutível frente a coadjuvantes – inclusive homens fortes –, mas enfrente fortes dificuldades em combates direto com as “mocinhas”, de maneira simples, todavia, eficiente para que o diretor consiga contar sua história. O foco não está em criar uma trama mirabolante, mas sim em explorar a morte desses jovens, de modo que algumas estupidezes e facilitações acabam se tornando até bem-vindas.    

Ainda que, lamentavelmente, nem todas as cenas sejam tão gráficas quanto poderiam e alguns cortes cheguem cedo demais – escondendo aquilo que teria sido mais impactante caso fosse mostrado – o filme conta com pelo menos dois momentos em que bem aproveita o melhor do gore. O diretor sabe extrair humor dessas mortes, seja através das circunstâncias estapafúrdias em que elas ocorrem, seja através da fisicalidade envolvida – por vezes remetendo a atos sexuais, como a morte na cama e no carro balançando – ressaltando a bestialidade do assassino.

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Com uma trama que não foge, nem tenta fugir, do tradicional, o diretor prepara um satisfatório prato de arroz e feijão honesto, que não finge ser mais do que de fato é: um filme de gênero feito para divertir o público através do humor sanguinário do terror. Por mais que ensaie um drama familiar, tangenciando assuntos como luto e abandono, o foco nunca deixa de ser o animal assassino e suas presas.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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