dom, 5 abril 2026

Crítica | Os Anos Novos

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Contar uma história apenas nas noites de 31 de dezembro parece, à primeira vista, um truque formal. Um recorte elegante, talvez até limitado para sustentar uma série inteira. Há um traço íntimo nesse gesto. Como se o restante do ano fosse ruído, e o que importasse estivesse concentrado no instante em que o relógio está prestes a virar.

Dessa escolha nasce Os Anos Novos. Ao longo de dez episódios, a narrativa acompanha Ana e Óscar em dez viradas consecutivas, começando em 2015, na noite em que completam 30 anos e se conhecem quase por acaso. Um encontro breve, atravessado pelo álcool e por uma expectativa difusa de recomeço. Um ponto mínimo capaz de atravessar uma década.

Ana divide apartamento, troca de amigos com facilidade, detesta o trabalho e vive com a sensação persistente de adiamento. Óscar é médico, recém-saído de um relacionamento, organizado na aparência, e carrega a impressão incômoda de falta. Eles se apaixonam sem mapa, sem garantias, sem promessa de permanência.

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A estrutura é o maior acerto da série. Cada episódio se passa em uma única noite de Ano-Novo. O intervalo entre uma virada e outra permanece fora de quadro. Surgem lacunas, silêncios e anos condensados em conversas interrompidas, olhares carregados e detalhes que denunciam transformações ou permanências. Crescer, aqui, assume forma fragmentada, irregular, frustrante.

Não há grandes acontecimentos nem reviravoltas espetaculares. A tensão se constrói pelo acúmulo: cansaço emocional, escolhas adiadas, decisões que parecem pequenas no momento em que são tomadas e reorganizam tudo mais tarde. Os Anos Novos trata relações longas como processos de desgaste e rearranjo, até o ponto em que deixam de caber.

Os saltos no tempo carregam melancolia e acolhimento. Nunca vemos os dias comuns, as semanas tranquilas, os intervalos que sustentam a vida partilhada. Ainda assim, reconhece-se uma verdade pouco romantizada: amar ao longo dos anos exige presença imperfeita.

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Divulgação

Iria Del Río e Francesco Carril sustentam a proposta com delicadeza. A química nasce da familiaridade. Soam como pessoas atravessadas por erros, cansaço e tentativas de recomeço. A relação ganha consistência por esse acúmulo.

A direção evita o melodrama. Os diálogos mantêm naturalidade, transitando entre desconforto e banalidade de modo revelador. A intimidade física acompanha as oscilações do vínculo ao longo dos anos e funciona como indicador emocional, sem se transformar em espetáculo.

A construção combina beleza e perda. Observa transformações e evidencia ausências. A maior parte da vida permanece nos intervalos. Amar surge como prática contínua, revista ano após ano.

No fim, a série recusa respostas fáceis, viradas catárticas ou finais reconfortantes. Mantém o olhar sobre personagens que seguem existindo enquanto a relação encontra forma possível de continuidade. Quando o ano vira, a mudança nem sempre está no sentimento, mas na maneira de sustentá-lo.

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