Chegou aquele período do ano em que todo mundo começa a se interessar pelos filmes indicados ao Oscar. Uma das minhas categorias favoritas de acompanhar todos os anos é a de Melhor Documentário, especialmente após a Academia ter a entrada de mais membros internacionais nos últimos anos. Este ano não é diferente, e entre os indicados está ‘Embaixo da Luz Neon’, novo filme do documentarista Ryan White, já conhecido por séries e filmes documentais, especialmente para a Netflix. Depois de bater na trave em alguns anos, finalmente tem um longa seu indicado na categoria.
Ryan White acompanha a vida da poeta Andrea Gibson após receber o diagnóstico de um câncer incurável. Ao lado de sua companheira, Megan Falley, Andrea transforma o cotidiano em território de resistência afetiva. Entre sessões de tratamento, viagens, apresentações e momentos íntimos em casa, o filme mostra como o casal decide viver com intensidade luminosa, escolhendo o riso, a arte e o amor como resposta à finitude.
Como um documentário que acompanha a vida de alguém, é muito baseado na decupagem, em como será montado, em como vai usar os depoimentos com imagens de arquivo (se o filme escolher usar). E eu acho que o diretor é muito feliz em montar sua narrativa em torno das felicidades da vida de Andrea Gibson. Afinal, o primeiro ato do filme é uma apresentação calculada sobre sua vida, é direto e sincero sobre seus medos, seus desafios, suas paixões. Sua vida. E o resto do filme é como se estivéssemos abrindo, junto com Andrea, várias caixas com memórias que ela viveu até hoje, e ela lembrando de cada detalhe dos seus amores. Poemas, sua esposa, sua família.

O que mais chama atenção é como o documentário evita a tentação do sensacionalismo. Ao falar de dor, de doença, de fragilidade, o filme poderia facilmente pender para uma exploração emocional mais óbvia, mas a câmera parece entender que há algo mais potente na delicadeza. Ela permanece próxima, mas nunca invasiva naquela história, com alguns momentos até de Andrea interagindo com Ryan. Existe um cuidado muito grande na forma como os poemas são inseridos na narrativa. A obra de Andrea não é só jogada ali como ilustração do que está sendo contado, mas como uma extensão orgânica de quem ela é, de suas paixões. Os versos não explicam sua vida, mas expandem ela, e muitas passagens do filme são focadas nisso. Em vários momentos, a montagem costura palavras e silêncios de maneira quase musical, como se o filme entendesse que a poesia também mora no intervalo entre uma frase e outra.
Outro aspecto interessante é a forma como o diretor utiliza o material de arquivo. Não é um artifício usado como simples nostalgia, mas funciona mais como uma ferramenta de contraste. O passado e o presente dialogam o tempo inteiro, criando uma sensação de continuidade emocional. As imagens antigas não servem apenas para mostrar quem Andrea foi, mas para reforçar quem ela continua sendo, em um ciclo, deixando a memória dela permanecer ali. Afinal, é sobre isso que ela reflete boa parte do filme.
E é essa coerência que torna o filme tão envolvente. O diretor não foca apenas em fazer uma celebração ingênua e pessoal, mas consciente e algo tocante, que extenda a vida de Andrea para a eternidade. Como se o longa afirmasse, com serenidade, que a vida não precisa ser perfeita para ser luminosa.
‘Embaixo da Luz Neon’ funciona menos como um retrato definitivo e mais como um convite para enxergar alguém em sua plenitude, com suas contradições, seus medos e sua coragem em um contexto difícil como o de viver com uma doença incurável. Um convite para olhar para a vulnerabilidade como forma de permanência e de registrar as maiores felicidades da vida de forma simples. É a maior força desse documentário.


