dom, 5 abril 2026

Crítica | Cara de Um, Focinho de Outro

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Todo mundo está ansioso para saber o que a pixar vai fazer em ‘Toy Story 5’ que tem data de estreia marcada para junho deste ano, mas antes a Pixar lança mais um projeto original, ‘Cara de Um, Focinho de Outro’. Dirigido por Daniel Chong – conhecido na Pixar como roteirista em curtas da série ‘Cars Toon: Os Contos de Mate‘ (2010) -, é o segundo longa animado na sua filmografia, com a sua estreia na cadeira de diretor sendo em 2020 com ‘Ursos Sem curso: O Filme’ (2020). O filme chega aos cinemas brasileiros em 5 de março de 2026.

Mabel (interpretada por Piper Curda), uma jovem estudante e que cresceu aprendendo a amar a natureza, tenta de tudo para evitar que o prefeito Jerry (interpretado por Jon Hamm) destrua a convivência entre animais e humanos na cidade. 

Cara de Um, Focinho de Outro’ chega aos cinemas com aquela expectativa automática que acompanha qualquer produção da Pixar Animation Studios. Durante anos, bastava o logotipo da luminária saltitante surgir na tela para que o público se acomodasse na cadeira com a certeza de que sairia dali emocionalmente transformado. Mas o tempo, implacável como sempre, cobra seu preço. E o novo longa deixa uma sensação incômoda de que a magia, aquela que parecia inesgotável, está se tornando um recurso escasso dentro do próprio estúdio que a popularizou.

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Não se trata de uma rejeição automática ao filme, tampouco de uma nostalgia vazia pelos chamados “tempos dourados”. O problema é mais estrutural e, neste caso em específico, técnico. Há um declínio perceptível na sofisticação da animação. Em um gênero que permite o exagero expressivo, a estilização criativa e a invenção de mundos que desafiam qualquer limite físico, elementos que a Pixar sempre soube usar em suas obras, este novo filme opta pelo caminho mais seguro possível. Não tem, nos elementos cinematográficos que a animação permite manipular, aquela camada extra de imaginação visual que fazia com que cada frame da Pixar parecesse pulsar com intenção. O filme não parece mal-acabado, mas tampouco demonstra o refinamento técnico que transformava a empresa em referência absoluta. É como se estivéssemos diante de uma versão “control C, control V” de si mesma, reproduzindo fórmulas que já funcionaram sem o mesmo vigor criativo.

Créditos: Walt Disney Pictures/Pixar

Se tecnicamente o filme se mantém apenas na média, narrativamente a situação não é muito diferente. A estrutura dramática segue a cartilha clássica do estúdio: protagonista deslocado, conflito identitário, jornada de autodescoberta e uma mensagem final sobre aceitação e empatia. E veja, o discurso do filme, isoladamente, não é nem de perto um problema. Toda a discussão sobre preservação ambiental, por exemplo, é mais que necessária, mas o filme não a transforma em algo para além de discurso. A Pixar construiu sua reputação justamente em cima dessas histórias emocionalmente acessíveis mas com obras que realmente impactavam, criavam um laço com o espectador. Filmes como ‘Carros’ (2006), ‘Toy Story 3’ (2010) e ‘Vida de Inseto’ (1998) não eram especiais apenas pelos discursos que traziam uma ideia artística sobre a fragilidade dos nossos sentimentos que a animação desses filmes, enquanto meio, se utilizava muito bem de suas (não) limitações. Mais de uma década depois e o estúdio, em seus filmes novos com histórias originais, prefere permanecer em uma zona segura, onde a fofura e o humor garantem simpatia imediata, ainda que à custa de complexidade.

E é curioso como justamente quando o filme decide explorar com mais coragem o universo animal é que ele encontra seus melhores momentos. As cenas que mergulham nas dinâmicas do reino animal, nas diferenças instintivas entre espécies e nas contradições naturais de convivência, trazem uma energia que o restante da narrativa não consegue sustentar. Há ali um potencial satírico interessante, uma possibilidade de usar o comportamento animal como espelho das nossas próprias estruturas sociais. Quando a narrativa flerta com essa ideia, o longa ganha fôlego.

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Nesse contexto, o personagem George se destaca como o verdadeiro coração da obra. Diferentemente de outros personagens que orbitam a trama cumprindo funções bastante previsíveis, George carrega nuances. Ele não é apenas um alívio cômico ou um guia moral. Suas inseguranças e contradições soam mais orgânicas, menos programadas para arrancar lágrimas no terceiro ato. É através dele que o filme consegue equilibrar humor e seriedade sem parecer superficial.

Créditos: Walt Disney Pictures/Pixar

George funciona porque não tenta ser maior do que a própria história. Sua trajetória é contida, mas honesta. E talvez isso evidencie ainda mais o problema central do longa: falta ousadia ao conjunto. Enquanto George encontra pequenos espaços de autenticidade, o restante da narrativa parece operar no piloto automático. É como assistir a uma banda talentosa tocando sua música mais conhecida pela centésima vez, com competência técnica, mas sem o mesmo entusiasmo de antes.

Há também uma questão de ritmo. O filme alterna momentos de energia com trechos excessivamente expositivos, que explicam demais o que poderia ser sugerido visualmente. Em uma animação, a imagem deveria ter protagonismo absoluto. No entanto, o filme muitas vezes opta por diálogos que verbalizam sentimentos já evidentes, diminuindo o impacto emocional.

‘Cara de Um, Focinho de Outro’ cumpre seu papel como entretenimento familiar, oferece algumas risadas sinceras e entrega uma mensagem positiva. Crianças certamente encontrarão diversão na dinâmica entre os personagens, e há uma ternura genuína em certos momentos. Mas enquanto uma obra, especialmente quando olhamos para a história da própria Pixar, acaba pecando muito em não construir uma unidade sólida. É uma fórmula repetida mais uma vez que acaba deixando o longa em um lugar de conforto, e só.

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Rui Filho
Rui Filhohttp://estacaonerd.com
Recifense, cinéfilo e estudante de Cinema desde 2020, graduando em Publicidade e Propaganda. Apaixonado por arte, amante dos esportes, curioso sobre tudo e sempre em busca de algo novo para assistir.
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