dom, 5 abril 2026

Crítica | A Noiva!

Publicidade

Quando Maggie Gyllenhaal lançou A Filha Perdida (2021), parecia ter encontrado uma forma muito precisa de filmar a raiva feminina, aquela que não é bonita, nem organizada, nem particularmente confortável de assistir. Era um filme que sabia exatamente o que queria dizer. Talvez por isso o primeiro impacto de A Noiva! seja tão curioso: aqui, Gyllenhaal não parece interessada em controle. Pelo contrário. Seu novo filme é um experimento meio desgovernado, um Frankenstein cinematográfico que mistura musical dos anos 30, horror gótico, filme noir, comédia sombria e manifesto feminista, às vezes tudo ao mesmo tempo.

A premissa nasce de um dos mitos mais revisitados da cultura pop: a criatura criada em Frankenstein finalmente quer uma companheira. No filme clássico A Noiva de Frankenstein (1935), essa noiva aparece por poucos minutos, tempo suficiente para virar um ícone, mas não exatamente uma personagem. Gyllenhaal decide então fazer o caminho inverso: e se a história fosse dela?

A resposta vem em forma de caos.

Publicidade

Aqui, o monstro vivido por Christian Bale chega a Chicago em 1936 pedindo à Dra. Euphronius (Annette Bening) que crie uma parceira para ele. O corpo escolhido é o de Ida (Jessie Buckley), uma mulher que morreu depois de enfrentar homens violentos. Quando ela retorna à vida, a interpretação de Buckley chega com uma energia ainda mais elétrica e, de repente, o filme ganha uma direção muito mais interessante. O que deveria ser apenas a clássica “noiva do monstro” surge como algo mais imprevisível: uma criatura curiosa, desconfiada, observando o mundo ao redor antes de aceitar o papel que escreveram para ela.

É nesse intervalo, entre existir e obedecer, que o feminismo do filme começa a tomar forma. Não como discurso inflamado, mas como um gesto simples e profundamente incômodo: a recusa em amar alguém apenas porque foi criada para isso.

Buckley atua como se estivesse em três filmes diferentes ao mesmo tempo, e curiosamente isso funciona. Sua Noiva é errática, furiosa, espirituosa e estranhamente carismática. Ela dança em clubes punk improvisados, cospe referências literárias, desafia o próprio monstro e atravessa a narrativa como se estivesse descobrindo o mundo pela primeira vez.

Publicidade

O filme acompanha a dupla em uma espécie de fuga criminosa improvisada, algo entre Bonnie e Clyde: Uma Rajada de Balas e um pesadelo gótico, enquanto deixam um rastro de corpos e confusão pelo caminho. A essa altura, Gyllenhaal já deixou claro que não está interessada em coerência clássica. Personagens surgem tarde, subtramas aparecem e desaparecem, e o filme parece constantemente à beira de se desmontar.

Essa sensação de descontrole acaba virando parte do charme.

Há momentos em que A Noiva! parece uma carta de amor ao próprio cinema. Em determinado ponto, o monstro descobre os filmes de um dançarino de Hollywood, vivido por Jake Gyllenhaal, e passa a imaginar números musicais grandiosos. As cenas surgem sem explicação narrativa, como se o filme simplesmente aceitasse que personagens também podem sonhar em forma de coreografia.

Nem todas as ideias recebem o mesmo cuidado. A investigação conduzida por um detetive cansado e sua assistente, vividos por Peter Sarsgaard e Penélope Cruz, entra na história relativamente tarde. O movimento de mulheres inspiradas pela estética da Noiva também aparece rápido demais para o peso simbólico que carrega. Há tanta coisa acontecendo que algumas ideias parecem apenas esboços de filmes que poderiam existir dentro deste.

Publicidade

Mas talvez esse seja exatamente o ponto.

Divulgação

A Noiva! não é um filme sobre precisão. É um filme sobre excesso.

Gyllenhaal constrói um espetáculo visual deliberadamente exagerado: figurinos extravagantes, maquiagem quase expressionista, cenários que misturam glamour de musical clássico com a sujeira de um submundo noir. Em vários momentos, a sensação é de assistir a um grande laboratório criativo, algumas experiências explodem, outras falham, mas nenhuma parece feita com medo.

Quando o filme tenta explicar demais suas próprias ideias, especialmente nas passagens mais didáticas sobre misoginia, ele perde um pouco da força. A raiva que move a história é genuína, mas às vezes o roteiro insiste em sublinhar a mensagem mais do que confiar nas imagens.

Ainda assim, mesmo nos momentos mais bagunçados, A Noiva! permanece fascinante. Há algo energizante em ver um filme tão disposto a arriscar, especialmente vindo de uma diretora que poderia facilmente repetir o sucesso elegante de seu primeiro trabalho.

No fim das contas, A Noiva! não é um filme perfeitamente montado. É um experimento barulhento, ambicioso e, por vezes, caótico, um daqueles projetos que parecem costurados a partir de muitas ideias diferentes, algumas brilhantes, outras inacabadas.

Talvez seja apropriado que um filme inspirado em Frankenstein funcione exatamente assim.

Porque, mesmo quando parece prestes a se desmontar, essa criatura cinematográfica continua viva. E, às vezes, isso já é suficiente para tornar a experiência eletrizante.

Publicidade

Destaque

Crítica | Caminhos do Crime

Caminhos do Crime é thriller policial de 2026 dirigido...

Um Cabra Bom de Bola | Animação já está disponível nas lojas digitais para aluguel e compra

Com lançamento nas plataformas de streaming, "Um Cabra Bom de Bola" já...

Pânico 8 | Roteiristas da sequência são definidas; Confira!

Segundo informações do Deadline, Pânico 8 já está em...

Crítica | Verdade & Traição

Na trama, baseado em fatos reais, Ewan Horrocks interpreta...
Quando Maggie Gyllenhaal lançou A Filha Perdida (2021), parecia ter encontrado uma forma muito precisa de filmar a raiva feminina, aquela que não é bonita, nem organizada, nem particularmente confortável de assistir. Era um filme que sabia exatamente o que queria dizer. Talvez por...Crítica | A Noiva!