É impossível começar All Her Fault sem sentir o estômago apertar. A série já entra sem pedir licença, partindo de um medo primordial e profundamente cotidiano: deixar um filho na casa de alguém e perceber que algo deu muito errado.
Marissa Irvine (Sarah Snook) chega para buscar o filho depois de um playdate e descobre que a criança simplesmente não está lá. Não existe endereço certo, não existe babá confirmada, não existe adulto responsável. Existe só o vazio. E, a partir daí, All Her Fault se constrói como um thriller sufocante, meticulosamente controlado e emocionalmente cruel.
O grande acerto da série é entender que o desaparecimento da criança é apenas o ponto de partida. O que realmente está em jogo é a culpa. Quem carrega. Quem projeta. Quem aponta. E, como quase sempre, quem paga essa conta são as mulheres.
Marissa não é apenas a mãe desesperada. Ela é a mãe que será julgada. Pela polícia. Pela mídia. Pelo público. Pelo marido. Por ela mesma. A série entende com precisão incômoda como a maternidade, sobretudo a maternidade de mulheres que trabalham, vem acompanhada de um contrato invisível de responsabilidade absoluta. Tudo que acontece é, de alguma forma, culpa dela.
Sarah Snook entrega aqui uma atuação menos performática do que em Succession, mas talvez mais cruel. Sua Marissa não tem espaço para ironia ou distância. É uma mulher em combustão constante, oscilando entre o desespero, a raiva e a tentativa quase patética de manter algum controle. É um papel que exige resistência emocional e Snook sustenta cada segundo.

Nesse sentido, a relação entre Marissa e Jenny (Dakota Fanning), a mãe da outra criança envolvida no playdate, se torna um dos movimentos mais inteligentes da série. Em vez de apostar na rivalidade fácil ou na desconfiança imediata entre mulheres, All Her Fault constrói uma aliança torta, frágil e profundamente humana. As duas se reconhecem no mesmo lugar de exaustão, culpa e medo de errar. Não é uma amizade confortável, nem limpa, nem isenta de tensão. É uma conexão feita de olhares cansados, silêncios longos e da compreensão quase instintiva de que, naquele sistema, elas estão do mesmo lado da linha de julgamento
Ao redor dela, surgem figuras que a série faz questão de tratar com desconfiança. O marido, Peter (Jake Lacy), é o exemplo clássico do homem que participa da paternidade enquanto tudo funciona. Quando algo quebra, ele rapidamente encontra onde depositar a culpa. As outras mães, as babás, os amigos e até a polícia orbitam esse mesmo sistema silencioso de julgamento.
All Her Fault também dialoga com uma tradição recente de thrillers sobre mulheres ricas, casas impecáveis e segredos bem escondidos. Mas aqui o luxo não é escapismo. Ele vira cenário de paranoia. As casas são grandes demais. As relações são frágeis demais. A sensação constante é de que nada é realmente seguro.
Nem tudo funciona com a mesma força. Em alguns momentos, a série estica demais o suspense e parece mais interessada em manter o mistério do que em aprofundar certas relações. Algumas revelações chegam tarde demais, outras pedem uma suspensão de descrença um pouco generosa. Ainda assim, o conjunto se sustenta pela clareza do que quer discutir.
No fundo, All Her Fault não está perguntando quem levou a criança. Está perguntando quem pode errar. Quem pode falhar. Quem pode desmoronar sem ser imediatamente condenado.
E a resposta, infelizmente, a gente já conhece.
All Her Fault está disponível na Prime Video.


