dom, 5 abril 2026

Crítica | Eles Vão te Matar

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À primeira vista, Eles Vão Te Matar pode lembrar um filme considerado seminal do novo século: Kill Bill, que retornou aos cinemas recentemente em sessão comemorativa. E, de fato, há diversos momentos do longa-metragem dirigido por Kirill Sokolov que visualmente lembram o clássico tarantinesco. Contudo, muito mais que ao filme protagonizado por Uma Thurman, They Will Kill You (no título original) é fruto de um cinema de ação muito específico, que bebe desde Edgar Wright até a gamificação potencializada pela franquia John Wick, sem esquecer, obviamente, de sua natureza de terror, que lança suas piscadelas para O Bebê de Rosemary.

Se esse primeiro parágrafo soa como uma pequena salada de ingredientes fílmicos, é porque todos eles estão explicitamente postos pela direção e pelo roteiro. Mas, aprofundando ainda mais a visão acerca do filme e do momento em que é realizado, o longa de Sokolov é mais um produto gerado a partir de uns Estados Unidos contemporâneos. Não que as discussões não existissem desde que o cinema se entendeu como ferramenta política, mas é interessante como a questão de classe abre espaço para brincadeiras com o gênero e, principalmente, com a mistura deles.

Antes de seguir com essa linha de raciocínio, retomemos a sinopse. Acompanhamos Asia (Zazie Beetz) dez anos após sair da prisão, respondendo a um anúncio enigmático para uma vaga de governanta em um luxuoso e antigo prédio em Nova York, a fim de encontrar sua irmã Maria, que está desaparecida e cujo último rastro leva ao local. Ao chegar, ela descobre que ali opera um culto satânico escondido nas sombras. Novamente, a ideia de um drama de reconciliação associado a um culto satânico e filme de sobrevivência é fruto de um cinema que não se leva a sério e que pensa sobre si mesmo.

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Até aproximadamente os vinte minutos de filme, o espectador ainda tateia o tom desejado, mas quando o primeiro assassinato acontece — assim como as luzes do quarto que se acendem —, Sokolov desenha para seu público que sua história é um jogo de classes que funciona justamente por causa da opacidade de suas intenções. Com uma câmera que busca construir uma espacialidade de videogame, o diretor jorra sangue falso e sua protagonista parece uma animação em diversos momentos.

Os sets de filmagem parecem brinquedos de alguém que se diverte com a movimentação cênica, e a própria ideia de um prédio com andares voltados aos “vícios” conversa diretamente com os níveis gamificados. Subir cada um deles para escapar dos vilões, quase perder a vida (ou perdê-la e retornar) são componentes que dialogam com essa miríade de referências que o filme toma para si.

E, quando falamos sobre um filme dos EUA de hoje, ele está dentro dessa perspectiva imagética que flerta com a “sacadinha” (mas aqui com certo interesse real pelo que está sendo realizado), ao mesmo tempo que assume uma ideia superficialmente política, mas que funciona enquanto alegoria. Se, anos atrás, O Poço gerou certa celeuma nas redes sociais pelo seu comentário vazio (e o filme, em si, é inábil em tudo o que se propõe), este não esconde que seu interesse reside nas possibilidades de fazer algo visualmente cool.

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Ao final da jornada de Asia, o que resta é a sensação de que o cinema de gênero contemporâneo encontrou uma forma de sobreviver ao próprio cansaço: a hibridização total. Eles Vão Te Matar não tenta ser o novo O Bebê de Rosemary, nem o novo John Wick, e muito menos, claro, Kill Bill. Ele se contenta em ser um remix frenético, uma colagem de referências que funciona enquanto organizador do caos.

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