O documentário Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera (Louis Theroux: Inside the Manosphere) acompanha o renomado documentarista britânico faz um estudo aprofundado da chamada ‘’machosfera’’ na atualidade e os seus contraditórios seus ideias. Definida por um grupo de homens que buscam investir em seu lado masculino, na maioria dos casos indo contra vertentes feministas, o longa acompanha o dia a dia desses polêmicos influenciadores digitais.
Documentários assertivos na mensagem que pretendem transmitir despertam questionamentos e até revoltas veementes a respeito de determinada polêmica. A explanação da perigosa influência de grupos red pills nos jovens, que passam a acreditar na visão deturpada e misógino sobre o sexo feminino, é direta e sem escrúpulos no filme de Louis Theroux, assim como em qualquer outra produção do documentarista que questiona sem qualquer rodeios uma temática em ascensão que coleciona uma verdadeira agenda de debates e crimes que se disfarçam de opiniões. A “machosfera”, que busca por uma desesperada reconstrução de valores do sexo masculino, acreditando que o feminismo, o empoderamento feminino e até mesmo a tão temida “agenda woke” estão enfraquecendo a sociedade, tende a tornar a nova produção documental da Netflix um verdadeiro filme de terror.
Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera segue o estilo jornalístico investigativo e expositivo que fizeram do cineasta um dos mais didáticos e certeiros na divulgação de grupos extremistas, religiosos e políticos de cunho conservador, explanando preconceitos e até contradições que deixam registradas a incontestável hipocrisia de determinadas organizações. O discurso de ódio mascarado de liberdade de expressão para formação de opinião é mais analisado a partir das perguntas do documentarista em suas entrevistas do que nas suas óbvias observações como narrador. Cada resposta de um influenciador que dissemina ideais de grupos red pill são incômodas e assustadoramente encaradas por eles e seus seguidores como naturais.

Encarando mais uma vez o papel de questionador observador e evitando um confronto direto com debates calorosos, Theroux e seu admirável controle emocional quase são testados a levar o diálogo para um questionamento acompanhado de tensões, ainda mais nos momentos em que o documentarista se vê intimidado por 3 figuras de destaque que influenciam uma verdadeira legião de seguidores. Uma das ideologias que influenciadores red pills pregam é justamente a de “acordar para a realidade” conforme o próprio termo se baseou, alegando que o sistema, ou a “Matrix”, esteja impedindo o avanço da humanidade. Acreditar que ideias de esquerda tenham controle absoluto é, no mínimo, preocupante, ainda mais quando levamos em conta a verdadeira bola de neve que acúmulo de teorias da conspiração contra “os bons costumes” e os “valores masculinos” tenha formado.
Harrison Sullivan, o controverso HSTikkyTokky, Justin Waller e Myron Gaines, do podcast Fresh&Fit, são as principais personalidades que Louis Theroux acompanha ao longo do projeto. Três influenciadores que pregam a soberania masculina e se auto declaram amantes das mulheres e entendedores de suas dores e conquistas. Entre os tão inquietantes argumentos desses 3 influenciadores, está um dos mais incômodos que alega que o homem nasce sem valor e precisa conquistar, diferente da mulher que nasce com o “valor da beleza”. Mergulhando no abismo da desinformação, disseminação de notícias falsas e até de conclusões científicas sem qualquer fundamento, Theroux assume um exército de um homem só contra o extremismo, ou pior, a machosfera.
Além das perguntas elaboradas pelo cinemasta e as explicações das mais absurdas dos entrevistados, o que também chama atenção no filme é a edição certeira e bem montada, que ajuda a intensificar o desenrolar da trama e consegue trazer uma atmosfera de uma reportagem investigativa bem produzida, com intuito de denúncia, sem o intuito de promover ataques gratuitos a seus alvos.
Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera cumpre bem seu papel expositivo de ideais retrógrados que tendem a disseminar nada de construtivo, na qual o ódio e a violência ganham forças até se tornarem algo pior. Uma produção necessária de um documentarista que, de fato, se preocupa em transmitir informações e combater injustiças.


