‘O Beijo da Mulher-Aranha’ ganha uma nova adaptação do romance de Manuel Puig, obra já consagrada que ganhou uma versão cinematográfica marcante em 1985 dirigido por Héctor Babenco, posteriormente, uma releitura como musical na Broadway. A direção fica a cargo de Bill Condon, diretor estadunidense conhecido por dirigir as partes um e dois de ‘A Saga Crepúsculo: Amanhecer’ e o live-action de 2017 de ‘A Bela e a Fera’. O elenco é liderado por Diego Luna – conhecido por seu papel como Cassian em ‘Rogue One: Uma História Star Wars’ (2017) e por ser o protagonista em ‘Y Tu Mamá También’ (2001) – e Tonatiuh, ator jovem e com carreira recente, enquanto Jennifer Lopez, cantora de carreira internacional, multiplatinada e amplamente premiada ao longo de décadas na música e no entretenimento, assume o papel mais ligado ao imaginário e ao espetáculo, reforçando o diálogo do filme com o musical clássico e a cultura pop.
Durante a ditadura argentina, dois homens dividem uma cela e constroem, entre repressão e fantasia, uma relação mediada pelas histórias de um musical hollywoodiano imaginado como forma de escape e sobrevivência.
Acho importante ressaltar que é um filme que parece viver em permanente tensão consigo mesmo. Ele tem uma ambição clara, até quase nobre, de conciliar política, memória histórica e fantasia, mas essa costura nem sempre encontra ritmo ou vigor suficientes para se sustentar ao longo de toda a projeção. A dinâmica entre Arregui e Molina, confinada à cela de uma prisão durante a Ditadura Argentina, demora a ganhar densidade dramática ou algum impacto emocional. O filme insiste nesse embate inicial com uma solenidade cansada, como se estivesse excessivamente preocupado em estabelecer ideias antes de permitir que elas respirem. O resultado é um começo arrastado, que testa a paciência e adia demais qualquer sensação de descoberta. Há um certo até academicismo nessa primeira parte, um peso discursivo que esvazia o conflito humano que deveria estar em primeiro plano, principalmente levando em conta o contexto que os personagens se encontram.

Quando o filme finalmente se permite sonhar, ele cresce. O maior mérito da obra está justamente na forma como a imaginação de Molina se infiltra na narrativa como um gesto de sobrevivência. O musical fictício que ele cria não funciona apenas como fuga, mas também um ato político silencioso. As sequências inspiradas nesse “clássico hollywoodiano” inventado instauram um contraste visual e simbólico poderoso: de um lado, a prisão cinza, sufocante, marcada pela violência estrutural da ditadura argentina; de outro, cores exuberantes, melodrama assumido e uma estética que celebra o excesso e a fantasia. Nesse choque de mundos, o filme encontra sua razão de existir.
É nesses momentos que ‘O Beijo da Mulher-Aranha’ parece compreender que a arte não é um adorno, mas uma forma de resistência. Imaginar, cantar, fabular torna-se um gesto radical em um contexto histórico que buscava justamente anular subjetividades. Quando o filme se concentra nessa ideia, ele ganha força, delicadeza e até uma melancolia bela.
Por outro lado, a abordagem da Ditadura Argentina é irregular e, por vezes, desconfortável. O personagem de Arregui surge excessivamente esquematizado, reduzido ao arquétipo do revolucionário comunista dogmático, quase uma caricatura do militante que repete leituras e discursos sem nuances. Essa simplificação empobrece todo o debate político e cria um desequilíbrio narrativo, pois a complexidade emocional acaba recaindo quase exclusivamente sobre Molina. O regime vira mais um pano de fundo abstrato do que uma engrenagem concreta de terror e contradições nesses momentos. Ainda assim, os momentos de imaginação acabam compensando.
‘O Beijo da Mulher Aranha’ acaba sofrendo com um desequilíbrio entre os muitos planos que tenta sustentar, mas encontra força quando reflete sobre como a arte e a imagética do cinema podem operar como refúgio e resistência em meio à violência histórica.


