Mais uma vez as telonas são preenchidas com uma adaptação do clássico livro de 1847, dessa vez dirigido por Emerald Fennell, diretora recente em Hollywood que já fez sucesso vencendo o Oscar de Melhor Roteiro Original em 2021 por ‘Bela Vingança’ (2021), além das indicações em Melhor Filme e Melhor Direção. Sendo apenas o seu terceiro longa, o elenco conta com Margot Robbie e Jacob Elordi, dois atores também já indicados ao Oscar e com vasta filmografia em Hollywood e queridos pelo público.
Em uma propriedade isolada pelos ventos do interior inglês, a relação entre Heathcliff (interpretado por Jacob Elordi) e Catherine (interpretada por Margot Robbie) nasce intensa e indomável, marcada por afeto profundo, orgulho e ressentimento. Quando escolhas sociais e emocionais os separam, o que era amor se transforma em obsessão, arrastando todos ao redor para um ciclo de dor, vingança e ruína que atravessa anos e gerações.
Como uma história representada várias vezes no cinema, cada filme acaba retratando aquela história de um jeito único. O clássico de 1939, dirigido por William Wyler, por exemplo, trás o melodrama para a tela em uma dinâmica de “gaiola emocional” entre Cathy e Heathcliff, mas feito em moldes clássicos incríveis, utilizando bem os cenários para falar sobre um amor genuíno. O filme de Emerald Fennell parte de um gesto muito claro e quase provocativo: retirar ‘O Morro dos Ventos Uivantes’ de qualquer vestígio de romantização confortável. Não é uma adaptação que busca o belo no sentido clássico, nem uma melancolia elegante que tantas versões anteriores perseguiram. O que existe nesta adaptação é algo mais próximo do incômodo, de uma sensação persistente de sujeira moral e emocional que atravessa cada relação, cada gesto, cada enquadramento. “Sujo” não como sinônimo de desleixo estético, mas como escolha ética e narrativa.

A diretora parece interessada em mostrar que aquele mundo não comporta pureza alguma, e que o amor entre Cathy e Heathcliff nasce já contaminado, atravessado por ressentimento, desejo reprimido, violência simbólica e material. A fotografia reforça esse desconforto ao alternar entre uma luz artificial, quase agressiva, e momentos de iluminação natural que não trazem alívio, apenas expõem ainda mais os rostos e os corpos. Os primeiros planos insistentes são fundamentais nesse processo. A câmera se aproxima demais, invade o espaço dos personagens, obriga o espectador a encarar a crueza daquele universo sem o distanciamento seguro da contemplação. Margot Robbie e Jacob Elordi respondem a isso com atuações que parecem sempre à beira do colapso, como se o amor que os une fosse menos uma promessa e mais como uma ferida aberta. Há algo de profundamente “feio” na forma como esses personagens se relacionam, e o filme não tenta suavizar isso. Pelo contrário, Fennell parece interessada em escancarar o aspecto quase animalesco desses vínculos, em mostrar que aquele amor não é redentor, mas obsessivo e sufocante, incapaz de existir sem destruir tudo ao redor. Ainda assim, no fundo dessa brutalidade toda, pulsa uma intensidade genuína, uma sensação de que, apesar de tudo, existe ali algo que nunca encontrou espaço para se realizar plenamente. Essa tensão constante entre o desejo alucinante e a repressão social é talvez o motor mais forte do filme, e também aquilo que o torna tão desconfortável de assistir.
Esse desconforto atinge seu ponto mais complexo no arco final, especialmente na doença de Cathy, quando o filme parece virar o espelho e mostrar o outro lado dessa mesma história. Se antes o amor precisava existir nos cantos, nos olhares roubados, nos beijos apressados e considerados inadequados para os padrões daquela sociedade, agora ele se desloca para um espaço paradoxalmente amplo e vazio: o quarto da nobreza, o ambiente que simboliza tudo aquilo que separou os personagens desde o começo. O espaço é maior, a cama é mais confortável, o status social é outro, e ainda assim tudo soa profundamente trágico. O sonho finalmente verbalizado surge tarde demais, envolto em choro, gritos e uma sensação de perda irreversível. É nesse momento que o filme parece condensar com mais clareza sua proposta, ao mostrar que aquele amor nunca poderia ter sobrevivido ao mundo real, porque ele foi construído justamente na negação, na falta, na impossibilidade.
Ao mesmo tempo, é também nesse ponto que a obra começa a “perder a mão”. A insistência na brutalidade, que antes funcionava como linguagem, passa a pesar excessivamente, especialmente na forma como as personagens femininas são tratadas. Há momentos em que o filme parece mais interessado em reiterar a violência do que em aprofundar suas consequências, e isso cria uma sensação de estagnação narrativa, como se certas cenas existissem apenas para reafirmar um ponto já estabelecido. O ritmo desacelera, a provocação deixa de ser inquietante e se torna repetitiva, quase automática.
‘O Morro dos Ventos Uivantes’ é mais um retrato sufocante de vínculos que nascem condenados. Ao rejeitar qualquer conforto romântico, o filme encontra força na crueza com que expõe seus personagens, mas também tropeça quando insiste demais nesse mesmo gesto, deixando claro que sua maior virtude e seu principal limite estão no mesmo lugar: a recusa em oferecer alívio ao espectador.


