dom, 5 abril 2026

Crítica | O Testamento de Ann Lee

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Uma história tão fantástica que só poderia ser verdadeira ou, ao menos, baseado em fatos reais. Essa é a melhor maneira de definir acontecimentos do filme inspirado pelas narrativas em torno da figura messiânica de Ann Lee, uma líder religiosa britânica que, desafiando as convenções patriarcais da época, fundou e liderou os Shakers, pregando celibato e igualdade de gênero. Suas convicções eram, simultaneamente, progressistas por acreditar no protagonismo feminino dentro da religião, e, ultraconservadora em relação a sua visão acerca das relações sexuais. Cheia de controversas, ela era tratada por seus fiéis como “mãe Ann”, uma espécie de Jesus feminina, que alegava ser casada com Ele.

O filme não esconde a ambiguidade da personagem, pelo contrário, escancara-a, em vários sentidos, sem, contudo, tecer julgamentos morais a seu respeito. Bruxa? Santa? Sacerdotisa? Louca? Charlatã? Quem de fato era Ann Lee? Talvez um pouco de todas essas coisas, ou talvez nenhuma delas. A verdade é que não há interesse em bater o martelo quanto a isso, até porque isso seria virtualmente impossível, além de pouco interessante. O melhor a se fazer é aceitar a complexidade dessa mulher e retratá-la como uma essa persona multifacetária.

Sua religião acreditava no expurgo dos pecados através da confissão pública e das danças. O corpo que não vivência sua sexualidade, encontra liberdade de expressão nas coreografias, enquanto os barulhos de prazer são substituídos pelos gritos e gemidos musicais, que se misturam com sons ofegantes, respirações sem folêgo. Não à toa, são nas cenas musicais que o filme encontra, junto aos personagens, seus muitos ápices orgásticos.

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O corpo da protagonista para se entregar ao Senhor através da dança é o mesmo que suporta as dores das violências infligidas contra as mulheres da época (e de hoje em dia). Seu marido usa-o para satisfação carnal, sem nenhum compromisso com a reciprocidade, inclusive descontando nele suas frustrações e substituindo-o quando entende conveniente, como se descartável fosse; já os conservadores que não aceitam a posição de líder religiosa ocupada por ela, usam-no para castiga-la, humilha-la e questionar sua feminilidade. O corpo que parece fraco por não conseguir gerar uma vida que sobreviva fora dele, prova-se uma fortaleza ao suportar condições desumanas de prisão, fome e tortura.

Belo, desejado e reprovado, esse corpo é central à narrativa, e a diretora Mona Fastvold, explora o máximo dele, sem censurá-lo, condená-lo ou fetichizá-lo, por meio de uma abordagem que não chega a ser totalmente naturalista, e tampouco ultrassexualizada.  O registro filmado por uma ótica feminina é essencial, dentro dessa proposta, para extrair o melhor da completa entrega física de Amanda Seyfried, seja no sexo, na dança ou na dor.

Analfabeta, mas com pleno domínio corporal, Ann Lee escreve seu evangelho, não através de palavras, mas de passos de dança, tornando o cinema a mídia perfeita para imortaliza-lo, afinal trata-se da arte do áudio e visual. A grandiosa obra de Festvold é uma experiência sensorial, marcada por sons, musicalidade e imagens impactantes não só pela sua beleza, como pelos sentimentos por elas evocados. A diretora combina domínio emocional com arrojo técnico, evitando um preciosismo inócuo. Precisamente por isso, é tão decepcionante a escolha da narração em off, que acaba por mitigar o peso do espetáculo, comprometendo um pouco a fluidez da imersão.

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Raíssa Sanches
Raíssa Sancheshttp://estacaonerd.com
Formada em direito e apaixonada por cinema
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