A documentarista, Denise Zmekhol, filha de Roger Zmekhol, arquiteto responsável por projetar o famoso edifício de São Paulo conhecido como Pele de Vidro, retorna para a capital paulista buscando reconectar-se com a memória de seu falecido pai e documentar a história do prédio que lhe deu fama. Chegando lá, ela encontra-o em ruínas e traça paralelos entre o seu estado de conservação precário e o cenário de abandono estatal vivido por parte da população brasileira.
O longa documental parte de uma abordagem pessoal e intimista, com um formato epistolar, no qual a diretora lê cartas que escreveu para o pai, após a morte deste. Com o mar do Rio de Janeiro de plano de fundo, ela rememora a última interação turbulenta entre os dois e reflete acerca de seus sentimentos conflitantes em relação ao genitor que partiu quando ela ainda era uma adolescente de 14 anos. Registrar sua revisita ao Pele de Vidro parece ser a maneira encontrada pela cineasta para finalmente fazer as pazes com o pai, através da união da arte dele (o prédio) com a dela (o documentário).
Ainda que luto e família sejam temas universais, a diretora – que também é narradora, lembrando, apenas nesse aspecto, Petra Costa em Elena – não consegue comunicar seus sentimentos de forma a criar uma conexão honesta com o espectador e, ao invés de despertar empatia, passa-nos a sensação de estarmos ouvindo o desabafo de uma estranha. Ela revisita a antiga casa e conversa com amigos da família, procurando memórias perdidas para conhecer, post mortem, o pai que pouco conheceu em vida.

Nessa primeira metade, o longa funciona melhor quando ela conversa com profissionais que comentam sobre a arquitetura da época em que o Pele de Vidro foi construído e tecem comentários acerca dos artistas perseguidos durante o regime militar instaurado pouco depois. O edifício levou esse nome por ser feito de vidro, de forma que seu interior estivesse sempre visível, a ideia era transmitir transparência para a sociedade. Seu pai é relatado como sendo um idealista que acreditava na promessa de progresso, materializada naquela construção. Tudo muda com o Golpe de 64, a transparência por ele desejada vai em desencontro com as intenções dos militares no poder. A nova realidade não é lugar para a utopia simbolizada por seu prédio de vidro.
O filme se fortalece quando parte para essa análise política mais frontal, tratando o prédio como um literal espelho da sociedade brasileira ao longo dos anos. A esperança ingênua da década de 50 refletida naqueles vidros, vai ruindo, aos poucos, até restar apenas uma carcaça abandonada pelo estado. A metáfora funciona até bem, mas há um problema na gênese de sua estrutura, porque a diretora realmente parece acreditar que tudo era perfeito antes dos militares. A inocência da infância macula a sua visão acrítica do passado, tornando suas conclusões menos poderosas do que ela acredita.

Quando olha para o cenário atual e vê a obra-prima de seu pai ocupada pelo movimento sem teto, ela, de início, aparenta estar mais preocupada com o bloco de concreto e vidro do que com os seres-humanos vivendo ali, a margem da sociedade. Num primeiro momento, ela busca ajuda de colegas que moram na França para comentarem sobre a situação e explicarem, de maneira ultradidática, os eventos históricos que levaram o prédio às ruínas.
Na segunda metade, uma tragédia coloca seu mundo a baixo, forçando-a a encarar a realidade dentro daquela construção. O cair das paredes faz com que ela alcance a tão sonhada transparência. Sem o hipervalorizado prédio, só lhe restam as histórias humanas, que ela capta muito melhor do que a sua própria. Sua ótica de pequena burguesa, revela uma visão de mundo limitada, que gradualmente se humaniza. Apesar de falha, sua abordagem é honesta. Há beleza em um filme que parte de uma questão tão particular para explorar problemas sociais mais grandiosos, é uma pena que falte profundidade nessa exploração.


